Não havia arrependimento e nem comoção com o ocorrido. Essas foram as palavras usadas pelo delegado Christian Cabral, da Delegacia Especializada de Delitos de Trânsito (Deletran), para descrever o depoimento do advogado Paulo Roberto Gomes dos Santos, de 67 anos, que atropelou Ilmes Dalmis Mendes da Conceição, de 72 anos, nessa terça-feira (20).
O atropelamento ocorreu na Avenida da FEB, em Várzea Grande, região metropolitana de Cuiabá. Ilmes atravessava a via, fora da faixa, e estava a menos de um metro de subir no canteiro central quando foi atingida pela Toro conduzida por Paulo Roberto, na faixa da esquerda.
Paulo tinha as duas faixas da direita livres, mas as imagens mostram que ele não desvia de Ilmes. O advogado também não tentou frear o veículo e, após atingi-la, não parou para prestar socorro.
O impacto foi tão forte que o corpo de Ilmes foi arremessado, sobre o canteiro, até a via oposta, sendo atingida novamente por uma Strada que trafegava na outra direção. Ilmes teve as duas pernas separadas de seu corpo. As partes ficaram espalhadas na via.
O motorista da Strada permaneceu no local. Já Paulo Roberto, enquanto deixava o local do atropelamento, foi perseguido por um policial à paisana que presenciou o acidente, interceptado e conduzido de volta ao local.
Em depoimento prestado à Deletran, Paulo Roberto jogou a culpa para a vítima. Afirmou, categoricamente, ao ser questionado pelo delegado Christian se havia atropelado Ilmes: “Não. O corpo dela que acertou o meu carro, do lado. Ela bateu no meu carro pelo lado do motorista. Ela que me atropelou”.
Christian fez uma avaliação do depoimento. “O que eu extraí de tudo é que não havia arrependimento, nem comoção com o ocorrido.”
Na leitura do delegado, Paulo Roberto, ao prestar o depoimento, não imaginava que a polícia já estava em posse das imagens, muito menos que elas mostram com clareza toda a cena.
“A câmera pegou os fatos está muito longe. Ele deve, no momento em que estava lá no local, ter analisado o local, viu que não haveria câmeras que poderiam ter flagrado [o atropelamento] e jogou essa cartada”, disse o delegado.
Segundo Christian, essa alegação do advogado pode ter sido motivada pelo fato de o carro dele ter ficado com danos na lateral, na dianteira esquerda. Nesse contexto, caso não houvesse imagens do acidente, seria uma dúvida plausível. “Existem casos em que a vítima está fazendo a travessia de forma desatenta e acaba indo de encontro a um veículo que está andando, não é algo impossível de acontecer.”
Porém, com as imagens e a dinâmica do acidente, o delegado coloca em xeque a versão de Paulo Roberto.
“No caso dele, as imagens elas falam por si só, mas as evidências também permitem chegar à conclusão de que a vítima foi atingida por um objeto em alta velocidade e não que ela simplesmente se chocou contra algo que estava à sua frente”.


